
Estádio opera com capacidade máxima, mas moradores do entorno ainda sofrem os impactos emocionais e financeiros da tragédia
A rotina voltou ao normal dentro da Arena do Grêmio. Passado um ano desde a enchente histórica que atingiu Porto Alegre, o estádio já restabeleceu 95% de suas operações e funciona com capacidade máxima desde outubro de 2024. Mas fora dele, a paisagem ainda guarda cicatrizes. Para muitos moradores da região do Humaitá e arredores, como o comerciante Luciano Pinheiro Osório, os prejuízos materiais e emocionais ainda fazem parte do cotidiano.
Luciano, de 54 anos, nasceu e foi criado na região. Em maio de 2024, precisou abandonar tudo: casa, comércio e seis imóveis na Rua Luiz Carlos Pinheiro Cabral, conhecida por ser ponto de encontro nos dias de jogo. Saiu com água pela cintura ao lado da esposa e conseguiu abrigo na casa de um amigo em Viamão.
Dono do popular "Bar do Lu", perdeu mercadorias, móveis e alugueis que sustentavam parte da renda da família. Um imóvel recém-adquirido para locação sequer teve chance de ser reformado — hoje, é um memorial de destruição, coberto por barro seco e lembranças dolorosas.
O impacto psicológico também foi devastador. Luciano relata que muitos vizinhos desenvolveram o que chama de “síndrome da chuva”: medo constante de novas enchentes, insônia e receio de voltar para casa.
“Cada vez que chove, o pessoal fica apreensivo. Acredita que vai alagar de novo. Tem quem voltou, mas vive em alerta. E tem quem não conseguiu retornar porque perdeu tudo.”
Após 134 dias sem jogos na Arena do Grêmio, os eventos esportivos voltaram a movimentar o bairro. Para Luciano, essa retomada foi essencial para reerguer o comércio. Mesmo assim, ainda paga os prejuízos da enchente e convive com rachaduras na estrutura da própria casa.
“Graças a Deus os jogos voltaram, e com eles o movimento. O pessoal vende lanche, aluga garagem, tenta recomeçar. Mas não conseguimos nos reerguer totalmente. Ainda dói.”
Embora os estádios Arena do Grêmio e Beira-Rio tenham retomado sua rotina, o entorno segue em reconstrução emocional, social e econômica. Para os moradores como Luciano, o verdadeiro desafio não é apenas o que foi perdido, mas o que ainda não voltou: a sensação de segurança, estabilidade e pertencimento.